Esse tamanho vazio que esse sentimento tem nada mais contém. Como se fosse uma casa sem móveis, vozes e passos que quando alguém gritasse algo, o eco preenchesse toda a casa. Posso te comparar a um grito. Um tom alto que todos os dias gritam dentro de mim te chamando em todas as direções do meu corpo. Acabei por entrar muitas vezes em casas vazias e perguntava em voz alta:
-Tem alguém aí? –só ouvia o meu eco, retornava a perguntar.
-Alguma alma perdida ao menos?
Não encontrei nada, nem passos, vozes, almas. Nada me respondia. Nada me ouvia. Só o silêncio me observava de longe, mas não respondia somente me dizia com a sua melhor resposta que eu nunca ia encontrar nada lá.
Tantas e tantas casas cheias me esperando. Acolhedoras, hospitaleiras, vozes, passos. Sempre optamos pela casa vazia onde sempre nunca há nada para nós.
Foi gritando em frente a minha casa vazia que vi uma jovem passar por mim. Olhos escuros, cabelos castanhos, escapulário no pescoço e uma blusa caída no ombro, calça jeans, caminhar apressado. Olhei pra ela por longos instantes, do inicio da quadra até a frente da minha casa. Ela vista que estava sendo observada, me perguntou:
-Posso ajudar?-Me olhando com aqueles olhos. Respondi:
-Esqueci onde deixei a chave, não sei como entrar.
A jovem, pouco constrangida, olhou pelos lados e viu em um canteiro de flores e revistou, a chave estava lá no meio. Disse:
-Está aqui. –Falou com um sorriso disfarçado.
-Muito obrigado, sempre esqueço de tudo.
-Casa bonita. –Observou enquanto eu abria a porta e desdobrava o chaveiro na mão para ela não ir embora.
-Bonita, porém já é usada, mas poucos moraram aqui de verdade, só está conservada por fora, por dentro precisa de alguém pra arrumar a bagunça.
-Não vai me convidar para entrar e tomar um café?-Disse um pouco atrevida
-Só se for pra ficar. -Respondi brincando com verdades
Ela entrou falando alto com aquela alegria por que viu que dava eco na casa e me perguntou:
-Mora aqui sozinho?-espantada
-Moro aqui com o que sinto.
-E cadê o que você sente? Não estou vendo. – Riu e continuo olhando a casa.
-Aqui sempre foi bem vazio, acho que é isso que sinto.
-Que triste,mas também moro com o que sinto, sinto muitas coisas, o que tu sente agora?
-Sinto que tu deveria vir pra cá.-Respondi com a audácia
-Eu posso ficar?-Ela fez essa pergunta, não sabia o que responder e disse:
-Fique, mas se for pra ir, cansei de partidas, é difícil ter que limpar tudo depois, arrumar e deixar vazio. Se for para ir, vá agora.
-Sei bem como é, carrego isso comigo e não partirei enquanto estiver aqui comigo.
-Estarei.

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